Universidade: distinção entre gêneros e cursos

Realmente existe um preconceito entre sexos e cursos universitários?

É notável a diferença de gênero existente entre os cursos de graduação, a qual se expressa tanto pelas desiguais proporções entre jovens do sexo feminino e masculino, quanto pelos símbolos que permeiam o exercício de cada tipo de profissão. Sabe-se que os cursos “de exatas” (matemática, física, engenharia etc.) contam com presença masculina bastante expressiva, ao passo que cursos ligados à saúde (fisioterapia, terapia ocupacional etc.) e a pedagogia são bastante feminilizados.

Compreender por que tão poucas mulheres adentram nesses cursos nos ajuda a entender as relações de gênero em seu sentido mais amplo. Aspectos como a discriminação de cunho sexista e o assédio sexual são recorrentes. Em salas preenchidas por garotos, muitas meninas são obrigadas a suportar assovios e cantadas quanto se levantam para ir ao banheiro, por exemplo.

No entanto, não são apenas os alunos que praticam tais atos – antes fosse! Infelizmente, o sexismo está institucionalizado, manifestado por atitudes discriminatórias por parte dos próprios docentes: ora acontecem situações onde o professor simplesmente ignora ou desvaloriza o conhecimento produzido por uma aluna, ora o professor questiona a capacidade dessas alunas de alcançarem as mesmas metas de aprendizagem que os alunos.

Isso decorre da permanente associação entre as competências exigidas em tais cursos e atributos supostamente masculinos: facilidade com cálculo, gosto pela matemática, noção espacial, raciocínio lógico. Tal teoria é sustentada, além do senso comum, pela própria ciência que reafirma categoricamente as diferenças nos cérebros de mulheres e homens, em especial no corpo caloso e nos hemisférios cerebrais.

Neste sentido, é até esperado que meninos e meninas se interessem distintamente por determinados cursos de graduação: essas tendências se explicam por processos de identificação que aproximam ou distanciam dos jovens dos perfis de masculinidades e feminilidades que se apresentam em cada curso. Habilidades como o cálculo, as relações afetivas e o “cuidado” mobilizam variados sentidos de gênero, seja nos cursos, seja nos próprios sujeitos.

Afirmar que mulheres são maioria nos cursos da área de saúde por uma simples questão de “preferência” ou de “vocação” é ignorar o que estaria levando a essa suposta preferência ou vocação. Não seriam as relações de gênero – desiguais por excelência – que rondam tais escolhas?

Nosso foco deve ser bem amplo: olhar para a educação (na escola, família e sociedade de modo geral) das crianças/jovens desde o início, entendendo a trajetória escolar de meninas e meninos ainda na Educação Básica, analisando os obstáculos e/ou incentivos durante a graduação e compreendendo como tais processos reverberam no mercado de trabalho. É esse contexto que nos permitirá entender o sexo e o gênero das escolhas acadêmicas e profissionais.