Filho gay: como os pais podem vencer o preconceito?

Ser gay não é uma escolha, é algo que nasce junto com a pessoa

De repente seu filho mudou. Está ausente, fala pouco, não pede ajuda. Você sabe que ele está angustiado, mas tem medo de perguntar o motivo. Até que um dia ele desabafa: “Mãe, sou gay”. E lá vem as perguntas: “Onde eu errei?”, “O que vão dizer?”. Não questione nada disso. Qualquer palavra errada nessa hora pode doer mais do que uma surra de homofóbicos (quem tem aversão à gays) rua.

O lado dos pais

Você pode argumentar e dizer: “Não quero que meu filho sofre neste mundo preconceituoso”. É impossível impedir as pessoas de sofrerem. É inevitável eliminar a possibilidade ou sofrimento da vida de um filho. Além do mais, é doentio fantasiar uma proteção paterna ou materna que ultrapasse as fronteiras da vida adulta de seu filho. Isso não apenas infantiliza seu filho, como cria uma relação patológica entre vocês. Você já parou para olhar ao redor do mundo hétero? As pessoas deixam de sofrer por serem heterossexuais? E se você acha que no caso dos homossexuais há mais sofrimento, isso só é verdade enquanto a maioria das pessoas pensarem como você.

Outro sofrimento comum é pensar “Ai meu Deus, não vou ter netos!”. Seu filho ou filha é homossexual, e não estéril. Homossexuais podem perfeitamente se reproduzir, seja através de inseminação artificial, seja por intermédio do sexo desprazeroso, cuja finalidade é unicamente reprodutiva, ou podem até realizar um dos atos mais generosos e belos, que é adorar uma criança.

Você também pode achar – e isso é muito comum – que seu filho ou filha pensa que é homossexual porque nunca experimentou o sexo oposto. Em primeiro lugar, como é que você sabe que ele nunca experimentou? E ainda que nunca tenha experimentado, é falso supor que tal coisa seja necessária. Se ele tiver que fazê-lo, o fará por livre e espontânea vontade, no dia que sentir o desejo. Sexualidade como obrigação é a via direta para o sofrimento.

Por fim, há a questão religiosa, que é a parte importante na vida de muitas famílias. Religiões diferentes abordam a questão da homossexualidade das formas mais distintas: há as que aceitam, as que condenam e as indiferentes ao tema.

O Brasil é um país onde ser homossexuais gera bem menos problemas do que em outros lugares. Em nosso país, uma pessoa homossexual pode deixar pensão para seu companheiro ou companheira, pode adotar crianças, pode realizar união civil. Têm muitos direitos conquistados e, muito embora ainda faltem tantos outros, grandes passos já foram dados e continuarão a ser.

O coração não escolhe

Pense bem. Você sempre sonhou que seu filho encontraria uma pessoa bem sucedida, de bom caráter, inteligente para amar. E se essa pessoas for do mesmo sexo? Lembre-se: ser gay não é uma escolha, ninguém escolhe a quem desejar. O desejo nasce. Pronto.

Pense que já bastam os obstáculos que seu filho enfrentará, então, não seja mais uma na vida dele. O que importa mais: a felicidade dele ou o que os outros vão falar? Ofereça a mão a seu filho, dê colo quando ele precisar e, juntos, vocês vencerão o preconceito.

De quem é a responsabilidade?

Muita gente pensa que um filho gay é o resultado de mães superprotetoras ou pais ausentes. Não é uma escolha. Então, não é nada que você tenha feito de errado na infância dele, não foi falta nem excesso de zelo.

O ideal é manter uma relação aberta com seu filho desde a infância, conversar e responder com naturalidade às perguntas mais constrangedoras.

E também não dizer frases preconceituosas. Por exemplo, ao ver um casal homossexual na novela, não julgue: “Isso é falta de vergonha, é pecado”.

Como ajudá-lo a superar o preconceito

Em casa: ao descobrir que o filho é gay, a maioria das mães prefere esconder a revelação do pai. É preciso, entretanto, conversar com o pai e juntos darem suporte ao filho.

Na família: nada de fazer seu filho consolar você depois que aquela tia fez piadinha porque ele é gay. Você tem que se fortalecer para apoiar seu filho.

Na escola, no cursinho ou na faculdade: não é porque o menino é frágil e a menina não anda só de cor-de-rosa que eles são homossexuais. A certeza costuma aparecer na puberdade, com o aumento da atividade hormonal. Agora, se o jovem é diferente dos colegas e sofre na mão deles, sugira à escola palestras contra homofobia e de promoção da educação sexual.

Boas respostas para gente xereta

Seu filho não vai lhe dar netos! Por que não? Se ter filhos for um desejo para ele e seu companheiro, ele pode adotar uma criança ou fazer inseminação artificial em uma amiga.

O menino foi mal encaminhado? Ele está no caminho certo para ser feliz.

Ele é assim porque você mimou demais! Excesso de amor não torna ninguém homossexual, só desenvolve a capacidade da pessoa amar.

 

Seu filho é o que é, e o que ele é vai muito além de uma extensão sua. Ele não é um robô, não é um projeto. É uma pessoa com desejos próprios. Admire-o por isso. E não apenas “tolere” sua preferência sexual. Respeite-o.